Quando fui a Buenos Aires

Fui a Buenos Aires duas vezes. Uma em 2006 e outra em 2010.

Na primeira vez, poucos de meus amigos conheciam a cidade porteña. Hoje, muitas vezes é mais barato ir para lá do que visitar o nordeste brasileiro. Por isso, é comum quando andamos por ruas como a Calle Florida e encontramos mais gente falando português do que espanhol.

Mas é inegável, a cidade é encantadora. É encantadora de dar dois suspiros! Lembro-me de passear com a Raquel por suas pequenas ruas, observar os pequenos prédios, aquelas casas tão antigas com um ar nostálgico e as pessoas com a velocidade de uma metrópole. É claro que nos perdemos algumas vezes. Mas era fácil olhar naqueles pequenos guias de bolso e encontrar onde estávamos. E lá seguíamos nós. Cinema na Corrientes, curiosidade no Barrio Chino, feria de San Telmo e Recoleta, as faculdades tão altas e majestosas (Por fora. Por dentro elas tinham problemas tão próximos aos das universidades brasileiras).

Ah e o tango… Além do Café Tortoni, lindo e suntuoso, cheio de turistas como yo… Como era lindo ouvir o tango nas ruas! Durante a feira de San Telmo, a orquestra típica El Afronte faz suas apresentações de tango. É lindo, tem bandoneon, violoncelo, piano, vocalista estiloso e tudo mais. Tudo isso na frente da igreja de San Pedro Telmo. Raquel e eu adentramos para uma visita guiada na igreja jesuítica, ao som da orquestra que tocava lá fora. Juro, era lindo. Encantador.

E em outros pontos da feira e em outras ruas também havia tanguistas, uns menos equipados, na verdade. Sabe, houve momentos em que comparamos nossos ambulantes que tocam forró com os tocaderes de tango das ruas de Buenos Aires. Eles ficam lá, com aquele olhar de nostalgia e dor, que só tango proporciona, fazendo música no meio da rua enquanto pedem dinheiro aos passantes… e os brasileiros, tocados por aquela cena, contribuem… ah, como somo empáticos com nossos hermanos argentinos!

E teve o dia em que procuramos um boteco. Sim, boteco com mesinha pra tomar cerveja, sabe? Não, não era um café que procurávamos. Era um boteco. Até bife de soja encontramos fácil, mas o tal do boteco foi difícil. E quando achamos, fomos tratadas a pão de ló e media luna. Éramos “gringas”, nas palavras do garçom rs.

Teve também o dia que quis descobrir o que era um pomelo. Não havia suco de laranja, só pomelos. Foi um custo só achar um pomelo. E foi o professor de espanhol da Raquel que explicou que “pomelo” não é lá palavra de se ficar falando assim. Algum argentino poderia achar que eu queria ver os seios de alguém. Claro, vexames a gente vê por aqui.

Foi também o professor da Raquel que nos explicou o drama imobiliário de Buenos Aires. Antes, ali naquele centro, viviam milhares de famílias, a maioria de baixa ou média renda. Mas ai teve uma reestruturação. Todo mundo sabe que a Argentina já passou bocados de crises, e é claro, a galera precisava arrumar uma grana. Inclusive com turismo. Passaram a cotar os aluguéis e imóveis em dólar (e muitos dólares), e aquela gente toda foi expulsa de lá. Só mora no centro agora quem tem dinheiro! E pra combinar com o visual, acabaram com os mendigos. No centro. Porque a cidade é para todos, então tem que ter opção pra todo mundo. Se quiser mendigar, que vá para o outro lado da cidade! Os únicos pobres que não foram expulsos de suas moradas foram os do Caminito. Mas é claro, aquelas casas exóticas (e distantes do centro) atraem curiosos. E tem tango! Como turista gosta de tango!

Mesmo com todas essas coisas, voltei a Buenos Aires em 2010, só pra desmistificar. Infelizmente, a pobreza não foi erradicada, mas também ninguém conseguiu segurar os pobres nos entornos. Já havia mendigos no centro, junto com os milhares de brasileiros, os alfajores, os shoppings e o tango.

O tango, dessa vez, eu vi no La Viruta, uma casa onde os porteños e alguns turistas ousados vão aprender a bailar. Distante do centro, sem fachada bonita, mas com muita gente. La Viruta é incrível, como toda manifestação autêntica. Manifestação, não, me desculpe. Como a vida do dia a dia. Lá conheci pessoas ótimas, dei risada, pisei no pé de alguém, aprendi a bailar. Despedia-me e voltava no outro dia. Estavam todos lá. Dos amigos que fiz, peguei carona duas vezes. O carro era antigo, como aqueles que vemos por suas ruas. Mas contrastando com o charme dos carros antigos, assustei-me com a trava de segurança. Não me lembro de ter visto algo daquele jeito nem quando eu era criança. Talvez o carro fosse mesmo da época que eu era criança, época que eu nem reparava em sistemas de segurança de automóveis, pobreza e riqueza, exploração de turismo, tangos e pomelos.

Em 2010 eu caminhei diferente por Buenos Aires. É claro que as ruas ainda são lindas, os prédios são lindos, a música é linda, os livros são baratos, as ruas são planas e tudo isso favorece a flanerie… Mas eu não podia deixar de pensar que os antigos moradores daquelas casas tiveram que sair de lá pra eu chegar.

E, ao invés de dois suspiros, dei um suspiro e meio.

 Sandra Oliveira

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