Ainda sobre o Viaduto*

A Nove de Julho, o Joelma e o Cambridge. Os três como testemunhas das minhas noites no 13° da quitinete. Respirando fuligem, transpirando desespero. Eu me esfolando no asfalto. Eu sem ar, no meio da noite. Asma. Eu morrendo de medo. A Nove de Julho esparramada lá embaixo e todas as almas do Joelma à frente. E o Cambridge lá, como um velho aristocrata que veste terno surrado e não aceita a própria decadência. E eu, e eles. E os postes do viaduto. Nenhuma árvore. A mão dele entrelaçada em outra mão, nenhuma árvore e os acordes bem tocados me jogando de um lado para o outro em ônibus e vans abarrotados com violinos, contrabaixos, cellos, clarinetes. Eu nas estradas. Meus amigos nas esquinas. Minha vida em algum ponto entre as BRs. Os gritos histéricos do Grão-Duque de Todas As Coisas Que Brilham, o meu holerite. Foi tudo muito seco, muito amargo. Eu sem  ar. Então decidi deixar o Joelma, o Cambridge e a Nove de Julho. Achei um apartamento na região. Ainda o  viaduto, ainda as luzes. Mas aqui na Bela Vista há árvores, há a padaria e as pessoas sorriem  enquanto sobem e descem ladeiras. Quando abri a janela e dei de cara com as copas das únicas três árvores plantadas ao lado da Nove de Julho, decidi que seria aqui. Na verdade, quando entrei no banheiro e vi um enfeite  de sereia de metal na parede – com as mãos na cintura e expressão desafiadora-, também soube que seria aqui. Não importava a falta de tacos, os azulejos ocos, a fiação problemática ou a fechadura que emperra. Importava ainda menos a imbecilidade do sr. Corretor de Imóveis. Havia árvores, o viaduto e um enfeite de sereia. Queria mais espaço. Pintei as paredes de um vermelho tão forte…que quase morri de asma. Queria uma sala vermelha, com plantas. É um barulho dos infernos, ainda tem fuligem. Mas antes que a Nove de Julho se insinue e mais alguém se estatele lá embaixo,  haverá o viaduto – acredite em mim, você vai se apaixonar pelo viaduto. E há uma floricultura que nunca fecha. Nunca mesmo. De madrugada, se o ar me faltar, saio e compro uma planta. O ar nunca mais faltou e eu já tenho uma jiboia, uma bromélia, duas carnívoras, um cacto e umas violetas.

Eu me cansei de quase tudo nos últimos dois anos. Da minha vida, das pessoas, dos mesmos problemas, dos mesmos lugares, das mesmas histórias.  Só não me cansei do Viaduto.

Desirée Furoni

sobre nossa vizinha: Paulistana, criada na zona norte, vive no centro da cidade e não existe sem café, música, amigos, imagens e histórias. Anda a pé e sonha com ruas sem carros. Não sabe pra onde vai, mas segue em frente.

Antes que a fúria dos prédios em marcha nos alcance, o Viaduto


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*texto publicado originalmente no blog da autora.

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4 comentários sobre “Ainda sobre o Viaduto*

  1. Texto lindo, Desiree. Inclusive, foi a partir dele que chegamos ao seu blog e vc chegou até o cidadeando.
    É um texto sufocante. Ansioso. Com calma no final.
    Morei perto do viaduto, mas sem tê-lo como vista. Mas acredito que entendo muito bem como é.
    E desejo que esse novo ar, a sereia e o viaduto transformem ou tenham transformado sua vida. Mas espero também que sejam conservadas as coisas boas da antiga morada.

  2. Pingback: O bairro | cidadeando

  3. Pingback: Kennedy* | cidadeando

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