Socrática Augusta

Depois do filme, minha epifania cinéfila mudou minha direção. Da Paulista fui parar na baixa Augusta. Sempre. Depois de um filme pelas regiões é inevitável passar pela Augusta.

E essa mudança de direção me levou ao encontro com meu amigo Sócrates, numa doce embriaguez. E como filosofar sem beber antes?

Sócrates e eu travamos um diálogo trivial… Depois daquele filme, eu olhava para céu, para o copo de cerveja, sentia meu ombro que doía. Minha pulsação estava rápida, minha cabeça girava, eu tremia e mal conseguia manter-me presente. Era a cerveja e o Almodovar. Uma história, talvez só um filme…

Eu já não estava lá. Me despedi, marcamos outro dia. Mas Sócrates se manteve no boteco.

Desci mais a Augusta. Caminhei. Senti cheiro de tinta e as letras e desenhos surgiam nas paredes ao lado… Eu estava tonta, Augusta… pensei nas cores: azul, vermelho, branco… Augusta… França? Chile? Augusta… Mas também pensei em mim. Ou não… percebi o quanto me sinto sufocada na V. Prudente e o quanto a embriaguez dessa rua me atrai (ô baixa Augusta!) Comprei roupas coloridas, tomei uma coca-cola, li Pessoa e Iñigo, cuspi no papel palavras ansiosas…

Poeta barata que sou, poeta socrática… Mil perdões, senhorita… bebo pouco, mas o suficiente.

Te encontro depois, Sócrates… na mesma rua. Augusta.

Raquel Foresti

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4 comentários sobre “Socrática Augusta

  1. Sócrates Magno

    A Augusta encanta e inspira sempre. Ter esta lendária rua como vizinha e companheira de boas prosas, insights, bons encontros é algo que não podemos desperdiçar. Encontrar a Raquel nestas cercanias sempre gera boas ressonâncias…

  2. Eita, que declaração de amor bonita, pela Augusta querida…
    Sua poesia “”barata”” (muitas aspas – usei esse termo pra usar o mesmo do seu texto) tem uma identidade tão sua, tiro o chapéu pra sua coragem toda em cavar linha a linha as nossas pequenas angústias. Sim, elas são da narradora, mas sinto como se fossem as minhas também.
    Augusta, Sócrates, SP, cerveja, boteco, eu sou tão familiar também a tudo isso e me senti vizinha de caminhada nesse seu grito mudo; quase catártico?
    Gosto das narrações silenciosas! E você faz muito bem isso.
    beijos 😀

  3. Verdade que a é díficil ir ver um filme no centro de SP e não passar na Augusta, mas o que seria da rua se não fossem seus transeuntes? Só consigo pensar nos lugares com seus humanos que lhes dão sentido.

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