Santos, terra de pardais

Na única vez que tinha ido a Santos, eu deveria ter cerca de quatro anos. Lembro-me do desespero que senti quando vi minha mãe saindo de maiô na praia na frente de todos!; de um balão grande do He-Man, da areia dura e da água quase cinza.

A imagem mental deve ter sido construída pela visita a outras praias do litoral paulista, somada ao que a gente vê pela tevê e pela internet. O fato é que Santos nunca esteve na minha lista de lugares a serem visitados, já que eu conhecia lindos mares azulados, tão mais atraentes do que nossa vizinha praia urbana. É como um admirador de pássaros: ele vai se interessar pelas aves de plumagens coloridas, vai querer conhecer aquelas que têm os melhores cantos, que conseguem voar mais alto, bater as asas mais rapidamente… Quem é que vai se interessar pelo pardalzinho que pousa ao lado de casa?

E assim era para mim, como acredito que para a maioria dos paulistanos. Santos é, tão somente, a “praia” que divide o litoral norte do litoral sul de São Paulo. E, pra completar, é totalmente urbana. Nada para se fazer por lá.

Foi quando surgiu a oportunidade de verificar mais de perto. Raquel e eu iríamos conhecer uma amiga que chegou até nós por meio do blog, e visitar outra amiga que estava passando os finais de semana com seu pai, morador de Santos. Já tínhamos iniciado o Cidadeando e por isso conhecer a cidade (e não apenas a “praia”) seria uma experiência interessante.

Inicialmente, pensamos em ficar em São Vicente, mas chegando lá, resolvemos ir para Santos mesmo. São Vicente, que foi a primeira vila fundada por portugueses na América, parece carregar ainda um sotaque ibérico nas construções e pequenos detalhes. Inclusive pelo seu Martim Afonso vestido de papai noel. Nada mais português rs. Encantava, mas nosso destino era Santos.

Era um sábado de sol forte e engatamos na caminhada. Se não fosse por ser véspera de um jogo decisivo do time de futebol Santos, e com isso todos os hotéis e pousadas estivessem lotados, talvez tivéssemos corrido pra areia e aproveitado aquele dia tão bonito. Mas como tínhamos que procurar um lugar para dormir, saímos andando pela cidade e aproveitamos para observar seus antigos prédios, suas padarias azulejadas, o museu do café, o bonde, as cores de santos…

Entre os azuis de SantosSim, mesmo sendo como um pardal, Santos guarda cores por ali. Principalmente o azul, cravado no azulejo português. E as construções não são apenas as do século XIX. Ali tem art déco também, prédios das décadas de 50 a 70 (que nossa amiga Day nos explicou: chamam-se “caixotes”), além de novas construções.

E não só de cor e prédio vive Santos. Quando estávamos decididas a encontrar o pessoal na praia e nos estender no sol, passamos pela Quinze de Novembro, rua do centro da cidade, e nos deparamos com um bar onde começaria uma apresentação de Fado e outras músicas portuguesas. Acho que escrevi Fado com letra maiúscula porque esse estilo me remete a algo de senhoridade, algo quase austero. Uma dor, uma angústia, um gemido quase calado. Deve ser difícil ser português. Ser tão intenso e tão angustiado, mesmo vivendo em uma terra tão linda, de castelos, pequenas construções, terra de um sol que se põe tarde e tem ruas com paralelepípedos. E os portugueses de cá, então?! Para os que vivem em Santos, talvez seja um pouco mais fácil… devem viver com essa saudade engasgada, mas com o sorriso e um quase molejo de brasileiro.

Raquel e eu não resistimos e ficamos ali no bar, ouvindo o grupo cantar, enquanto falávamos sobre sua viagem a Portugal e sobre como Santos nos apresentava surpresas.

Depois do fado, fomos enfim para a praia. Mesmo com a areia dura e o mar cinza, ela é alegre. As pessoas não pareciam ter o ar irritado por não estarem diante de um mar verde-azulado; pareciam estar sim felizes, como se fossem paulistanos em um bar da enfumaçada Av. Paulista.

E depois das caipirinhas a beira-mar, Day nos levou ao Samba do Ouro Verde. Um lugar pequeno, afastado do mar, afastado do centro, mas deliciosamente santista. Samba animado, formado por amigos unidos há décadas, que atrai gente de todo canto. E nós lá, ora sambando, olhando com admiração para os músicos, ora para os troféus do time de futebol da associação, expostos no alto. Aquele ar de bairro, de amigos da vila, coisa que eu não vivo em São Paulo. Coisa que achei linda ali.

O mais fantástico é que mesmo sem combinar, fomos conhecer a cidade um dia antes de um jogo de decisão no futebol: Santos e Barcelona, final do mundial de clubes. Imagina Brasil em copa do mundo?… Não, talvez mais forte. Porque era como se fosse um país pequeno, afastado dos centros, empolgado com algo que há muito tempo se esperava. Quase a chegada de um messias. E outra coisa era diferente: não era o amarelo canário da copa do mundo que predominava, era o preto-branco dos santistas, pardais agitados, estendendo suas bandeiras por janelas e portões, cantando alto, abraçando-se, gritando. Realmente lindo. Se havia torcedores de outros times? Certamente. Mas ninguém era capaz de estragar aquela festa. O dia era dos pardais.

Fomos dormir logo (na casa da Day mesmo), pois o jogo seria logo pela manhã. Acordamos cedo e assistimos parte do jogo. O triste foi ver o time da cidade ser derrotado. E quando saímos à rua, santistas calados numa cidade em preto e branco. Mas era Santos, o céu estava azul e o dia era quente, e a cidade continuou desajeitadamente bela.

Engraçado foi perceber essa cidade tão cheia de belezas e nuances, tão perto de nós (paulistas) e tão desconhecida. Raquel e eu prometemos: voltamos a Santos e vamos descobrir outros de seus segredos. Outros azulejos, outros Fados, outros cantos.

Sandra Oliveira

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14 comentários sobre “Santos, terra de pardais

  1. Estou tão longe de casa, e você me fez dar voltas por Santos como ninguém.
    Volto aqui depois pra comentar mais.
    Antes, digo que adorei o texto. Você me fez lembrar a tristeza daquele domingo pardo, depois da derrota do Santos. Tenho essa imagem muito forte também.
    Parabéns, San. Suas crônicas das cidades estão cada vez melhor.
    Obrigada pela amizade, tão sem raízes, porque ora virtual, ora sitiada em ruas ou praias nunca habitadas, se pensarmos nos lugares declamados aqui por ti, onde caminhei sem nunca ter visto seus muros e avenidas e hábitos.
    Vida longa aos passeios por Santos.
    Ainda nos encontraremos mais vezes por lá?
    Com certeza!

  2. Osmar Golegã

    Agradeça a Day por ter publicado este texto para mim. Eu sou um cara difícil de chorar, mas o texto lubrificou um pouco os olhos hahahah. Texto muito bem escrito, gosto de ler e ainda mais falando bem da minha querida Santos, e do meu querido Santos, que carrego com tinta no corpo. Tinta DE Santos, e DO Santos!

    Quem acha aqui sem graça é quem não conhece, e aind bem que vocês tiveram a oportunidade de aproveitar um pouco do que a cidade tem a oferecer.

    Aliás, parabéns em notar o azul turquesa proeminente na cidade! Esta vai ser a cor do uniforme 3 (comemorativo) do Centenário do Santos.

    Parabéns e obrigado por esta belíssima crônica.

  3. E posso dizer? adorei seu comentário 🙂
    E se hoje tenho esse carinho por Santos, como o próprio texto diz, vc foi uma das pessoas que nos proporcionou 😉
    E, Osmar! às vezes a gente ama a cidade que mora e nem sabe direito porquê. A gente vê todos os dias a paisagem e ela parece estar ali dada, como se fosse parte do ar. E quando a gente para e percebe seus detalhes… é ai que a gente entende porque ama a cidade. É ai que a gente se emociona.
    Fiquei muito feliz pelo texto ter te emocionado 🙂

  4. Leka

    Assim como o Osmar cheguei a esse texto pela querida Day… só podia!
    Assim como o Osmar sou torcedora do Santos que sofreu consciente da superioridade do Barcelona no jogo da final do Campeonato Mundial.
    Assim como o Osmar meus olhos ficaram marejados.
    Mas, confesso, ao contrário dele, sou de choro fácil… mas de emoções maduras e digeridas…
    Seu texto me levou a passear na minha terra natal de onde tenho as melhores lembranças, de onde sinto tanta saudade! Não é fácil a vida do santista apaixonado que deixa a cidade amada em busca do mundo…
    Parabéns pelo texto, parabéns por se permitir ver a Santos apaixonante que existe além da e na própria praia urbana de areia dura e mar cinza!

  5. Luís Salgado de Matos

    Obrigado à Raquel por me ter chamado a atenção para o texto. Está escrito com leveza e poder evocativo. Era natal para o Martim Afonso trajar de papai noel? Fiquei surpreendido por o fado ser cantado em Santos. Agradavelmente surpreendido. É uma cidade portuária, como Lisboa. Os fadistas eram brasilçeiros?

    1. Sim, Luís, era perto do natal. Havia uma estátua de Martin Afonso usando um gorro vermelho e presentes aos pés rs
      E, além de ser portuária, em Santos há muitos portugueses e seus descendentes. Isso observamos na arquitetura, na culinária, nas atividades comerciais, na música. É bem provável que eram brasileiros sim, mas com alma lusitana.
      E obrigada pelo elogio ao texto!

  6. Foi um dia muito especial para gente. A história começou já na descida da Serra, era um ‘pipipi’ naquela perua cheia de baratas… várias reflexoes sobre o que é cidadear, sobre o que é comunidade, papo de amiga, papo de amiga nerds. Ver S. Vicente, a capela lá cheia de ntervenções bizarras, o Martin Afonso vestido de papel noel… caminhar na orla e decidir por Santos… Lembro que minha ansiedade era conhecer a Day mas, além disso, era conhecer a Day de Santos, o Santos da Day. Fomos Sandra e eu atrás de uma amizade, atrás do samba, atrás do futebol… e descobrimos tanto mais. Sim, uma cidade com alma portuguesa, de uma profundida que escapa no olhar distraido. Suas praias são uma Av. Paulista, seus canais as veias de entrada para um horizonte muito mais amplo que o da cidade de SP.

  7. Nasci e moro em São Paulo, mas meus pais – as duas pessoas mais importantes da minha vida -, além do meu time do coração, estão em Santos. Fui algumas vezes para lá quando criança para ver jogos na Vila Belmiro. Contudo, nos últimos 5 anos, por conta da mudança dos meus pais para lá, frequento a cidade quase que semanalmente. E, realmente, Santos é muito mais do que a maioria dos paulistanos pensa. Cidade agradável, com lazer fácil, tranquila, respeitosa, amigável… Enfim, espero que eu consiga me mudar para lá de vez dentro de alguns anos!
    Ainda em tempo. Emocionei-me muito ao chegar em Santos neste final de semana do jogo da Libertadores. A cidade estava linda! Contudo, a minha maior recordação é do dia em que o Santos foi campeão da Libertadores. Era véspera de feriado e meu pai e eu fomos ao Pacaembu ver a final. Assim que o Santos ganhou, saímos do estádio e descemos a serra. Na estrada, vários torcedores já faziam a festa e, ao chegar em Santos, chorei, pois nunca tinha vivido algo como aquilo. Eram quase 2h da madrugada e o que mais se via eram homens, mulheres, idosos e crianças pulando, cantando, comemorando de uma forma extremamente alegre e não violenta pelas ruas da cidade. Simplesmente inesquecível.

  8. Gente, como gosto deste texto. Como diz Rach, me sinto contemplada por ele, também. Santos tornou-se no meu imaginário atual, algo muito plastificado, mas com este texto, lembro da poesia da minha cidade, tão parda, mas tão viva em “seu preto e branco”.

    “Porque era como se fosse um país pequeno, do interior, empolgado com algo que há muito tempo se esperava. Quase a chegada de um messias. E outra coisa era diferente: não era o amarelo canário da copa do mundo que predominava, era o preto-branco dos santistas, pardais agitados, estendendo suas bandeiras por janelas e portões, cantando alto, abraçando-se, gritando. Realmente lindo. Se havia torcedores de outros times? Certamente. Mas ninguém era capaz de estragar aquela festa. O dia era dos pardais.”

    Isso é Santos.

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