Agarrando Estrelas

Minhas andanças por São Paulo às vezes me levam a lugares que não visitava há algum tempo, e às vezes certos lugares brincam com nossos sentimentos e memórias como se fossem crianças mal criadas.

Andando pelas ladeiras do bairro Vila Mariana, onde depois estar mais perdido do que cego em tiroteio, vi um caminho que me parecia familiar e segui por ele. Encontrei a Rua Machado de Assis, conhecida pelos amigos do movimento rockabilly em São Paulo como a rua do “finado” – e o finado era o Red One. Comprovei com meus olhos que do antigo local de dançantes domingueiras rockabíllicas pouco sobrou. A cor da calçada, que geralmente era usada como ponto de escape para fumantes e dançarinos mais empolgados em dias de casa cheia, ainda é a mesma. A rampinha de entrada que eu costumava usar sempre ao entrar e sair, quase como um TOC, continua lá. As portas de aço não mudaram, mas lá dentro sim: as paredes agora têm um tom bege sem graça, comparado ao vibrante vermelho de antes.

Me senti um pouco mal em ver que o bar não mais existia. Um estranho sentimento saudosista me pegou de surpresa, talvez pelo momento que estou vivendo agora. Não que eu fosse um entusiasta das domingueiras do Red One… longe disso. Minha relação com ele era meio agridoce, oito ou oitenta, como quase tudo em minha vida.

Ali na frente do bar, lembrei da primeira vez em que visitei aquele lugar e de um fato ocorrido no dia que me fez sair de lá sem pensar em voltar – a não ser por algum motivo que realmente valesse a pena. Naquele dia sai de lá me sentido tão mal e tão pra baixo, que formigas me mostravam os fundilhos. Mas um dia arrumei um bom motivo, um que me fez sair de lá saltando alto e agarrando estrelas, numa felicidade digna de um Mário finalmente encontrando sua princesa no oitavo castelo do oitavo mundo… pobre Mário…

Fiquei um tempo em frente ao antigo Red One, agora chamado Armazém da Villa, ao que parece ser, um daqueles mercados de artigos gastronômicos de luxo para pessoas chiques e cheias de frescuras que promovem festas com queijos e vinhos, bem “parecido” com o antigo público ‘amendoim com cerveja’ do antigo bar. Fiquei alguns minutos por lá, observando as mudanças, indo e voltando no tempo. Depois me despedi e segui caminho rumo à Avenida Domingos de Morais, enquanto ajeitava nas costas a velha mochilinha de guerra dos tempos de domingueiras rockabílicas no velho Red One.

Mauro Junior

Sobre nosso vizinho: Desenhista e Ilustrador Freelancer, Produtor de Vídeo Independente, Roteirista, Comediante, Louco por longas caminhadas e Dançarino de Rockabilly nas horas vagas.

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2 comentários sobre “Agarrando Estrelas

  1. Também já me senti muito mal qd percebi que um lugar não existia mais. É como perder uma referência, sei lá… doaram seu brinquedo favorito sem te avisar, sabe?

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