Branco

Você reclamava que eu gostava da rua… caminhava comigo pela Alameda Lorena, mas não queria estar lá. Você gostava de me ver naquele vestido branco, meu corpo jovem e imperfeito caia bem nele, mas você não queria rua. Você nunca entendeu que esta é a minha vocação, como a dos camelôs, dos mendigos, das putas, dos hare krishna, dos pastores, repentistas. Minha vocação é a rua.

Você me queria burguesa, naquele vestido branco mesmo, me queria amante, apesar de não ser da sua raça. Como eu também não era de sua laia, no meu vestido branco pulei o nosso muro, fugi de você com uma desculpa vulgar… E fui correndo para a mesma rua onde fui feliz com você. Lá me encontrei com Y., efêmero, que me aceitou, mas por pouco tempo…

A liberdade feminina posta num vestido branco em plena rua está fora da expectativa, além do limite do aceitável… Com desculpas libertárias, Y.  não conseguia esconder que também me queria burguesa, me queria como sua propriedade. “Cariño, eu sou da rua”. Então foi Y. que se foi numa desculpa cheia de glamour.

Sem Y., continuei na rua, sozinha. Ela me acolheu e me sarou… ela é a solidão passante da cidade. Ela não se importa comigo, circulante, displicente, ela é branca como meu vestido, é nula, insignificante… A rua é minha e de mais ninguém. Eu sou da rua como de mais ninguém. E sou a rua, rua de ninguém.

Raquel Foresti

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4 comentários sobre “Branco

  1. Depois do ‘Vermelho’, este com uma escrita quase raivosa, quase anti-romântica me veio como um soco no estômago… E lembrei de um texto que comecei a escrever esses dias, chama-se ‘A dama do cabaré’. Uma homenagem às mulheres que não são putas, para olhos sãos e líricos, e são libertárias, têm uma política de vida para além do papai-e-mamãe de tantos (mocinhos/ as burgueses e sua bagagem moral patética), porque possuem um traquejo ao sensualizarem as ruas e suas próprias vidas. Geralmente, usam muito vermelho, essas mulheres. E tenho certeza que possuem muito do ‘seu’ vestido branco, distante dos altares das noivas, lógico.

    Gostei!

    Saudades, querida 😀

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