Da perspectiva de quem está aqui

Recebi o convite para escrever algo sobre o assunto do momento: a região compreendida entre a Estação Julio Prestes e a Estação da Luz, conhecida cruelmente como Cracolândia (como se houvesse algo divertido nesse pedaço de terra). Essas duas estações representam uma São Paulo pujante do final do século XIX  e primeiras duas décadas do século XX, que expandia suas fronteiras através da São Paulo Railway e da Sorocabana construindo a mística do Estado que chamariam mais tarde, soberbamente, de “a locomotiva do Brasil”.

Neste principio de século XXI o cenário deste perímetro já não demonstra pujança, mas decadência de um local, que preterido pelas elites construtoras dos grandes casarões inseridos nos lotes idealizados pelos estrangeiros Nothmann e Glete – hoje nome de alamedas –, foi também preterido pelo estado, que partiu de mãos dadas com os ricos.

Lembro-me de quando morei no bairro, na Rua Vitorino Carmilo, nos idos 1993, ainda criança. Minha janela dava vistas à Rua Apa, já um lugar triste naquele ano, onde o problema do crack começou a nascer e se espalhar entre os moradores das redondezas, que criaram seu primeiro ponto de aglomeração na Rua Guaianazes.

O destino me trouxe de volta e hoje trabalho nesse bonito prédio projetado por Christiano Stockler das Neves que abrigaram os escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana. Percebo que o tempo passou para mim, mas o cenário pouco mudou, mas foi ampliado.

Nas últimas três semanas tenho visto na TV parte do que vejo ao vivo; helicópteros chacoalham as janelas da sala que trabalho.

Todos os dias passo de trem por aquele prédio que foi construído pela Lidgerwood pra fugir da febre amarela de Campinas e depois vendido para o Moinho Santista – nunca para o Matarazzo. Pelo vidro hoje vejo a favela do Moinho, uma tragédia que se anunciava, abrigando milhares de pessoas que, talvez por desespero de dormir na rua, montaram suas moradias no perigoso e exíguo espaço entre as duas linhas que ajudaram São Paulo a ser São Paulo. Essa metrópole usada pelas elites que abrem grandes vazios urbanos, depois relegados àqueles que preferem ficar aqui, no vazio abandonado pelo estado, a ter que morar numa periferia distante construída pela COHAB ou pela CDHU. O povo fica com o resto das elites. Restos de casas, restos de planejamento urbano, restos de políticas públicas.

Finalmente, depois dos minutos de velocidade reduzida do trem para evitar atropelamentos dos moradores do Moinho, chego à Julio Prestes. O cenário é de uma plasticidade trágica: pessoas perambulando sem rumo, sujas, às vezes com fome, sendo enxotadas da frente do prédio que trabalho para que o caminhão pipa lave os rastros da miséria humana e o dia seja mais normal que a noite. A Julio Prestes lembra-me as mulheres temas de tantos livros que de dia se comportam sofisticadamente e a noite se transformam em figuras rechaçadas pela sociedade. Dito de outro modo, a Julio Prestes de dia é Maria e de noite é João.

Eu mesma, crítica que sou, já comparei a região da rua Helvétia  com cenas de Resident Evil ou do videoclipe Thriller de Michael Jackson. Não é que eu me divirta, mas é a ficção da vida real. A mesma ficção de ver a necessidade de o estado agora, em ano eleitoral, mostrar serviço. Mas, novamente, o estado prefere mostrar aqui aquele único e mesmo serviço que mostra nas periferias: o da repressão, o do “Sufoco”, como é chamada a operação. Mas qual sufoco? Talvez o sufoco que os engravatados de plantão estão tentando arejar com ações pontuais e ineficazes no longo prazo, quando a eleição é no curto prazo?

No primeiro dia útil de 2012, quando vim ao trabalho de carro porque o prédio do Moinho que sofria risco de desabar e mesmo com 800 kg de dinamite não desabou – era para cair? –, passei pela Helvétia e não havia aquele monte de gente; não era outra limpeza da rua, corriqueira. Onde estavam aquelas pessoas? Logo me veio à mente a imagem da distante câmara de gás nazista ou das recentes Kombis “alquimistas” que tinham a missão de devolver viciados aos seus “lugares de origem”. Mas as pessoas estavam ali, do outro lado da Rua Mauá, ou nas ilhas da Avenida, também nos gramados embaixo da sombra da estátua do Duque de Caxias, feita por Brecheret.

O que vejo aqui é uma tentativa sôfrega e desesperada de fazer alguma coisa, que não se sabe bem o quê, mas que tinha que causar algum impacto. De fato, é menos tenso caminhar pelas ruas e praças da região, mas e aquelas pessoas? O que será feito com elas? Serão escondidas debaixo do tapete de outro bairro abandonado pela elite, para que a Nova Luz atenda aos interesses de alguns “Caco Antibes”?

Não adianta ações de limpeza (urbana ou humana) ou de “revitalização”, que desconsidere as pessoas. Esse lugar não precisa de revitalização. Aqui há muita vida, vidas tristes ou vidas construídas aqui por décadas, vidas de famílias moradoras, vidas de trabalhadores e comerciantes que nunca saíram daqui, vidas que não sabem bem se ainda são vidas, mas vidas. Esse lugar precisa da atenção que o estado proporciona aos bairros ricos e cheirosos para onde as elites migraram. Afinal, alamedas, aqui já tem!

Deborah Neves

Sobre nossa vizinha:  é corinthiana, historiadora, trabalha na (tentativa de) preservação de patrimônio cultural do estado de SP.

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4 comentários sobre “Da perspectiva de quem está aqui

  1. Conversava hoje com um amigo, jornalista de cultura pop, e propunha um texto que tratasse o dilema ético presente na série de quadrinhos (e gora também de TV) Walking Dead, no contexto da ocupação militar da “cracolândia”, mas de fato, após ler esse texto, temo que a comparação com o game Resident Evil parece ser a mais adequada aos anseios das elites paulistanas “assustadas” com o fato desses “mortos” ainda serem capazes de caminhar pelas ruas que abandonamos. O dilema ético, moral e humanitário parece ser bravata de um grupinho,que como eu, insiste que se tratam de seres humanos, vivos, e que “dor e sofrimento” não é método de cura, mas de extermínio.
    A maioria mesmo, está com pressa de chegar, de sair, de passar, pra descansar em sua casa, que na maioria das vezes (e não por acaso) é distante, assiste contente as notícias sobre o lugar o lugar de onde seus pais foram expulsos, e onde seus filhos não serão bem vindos, estará amanhã, bem mais limpo e seguro.
    O bom de trombar textos como esse da Deborah é a sensação de não estar acordado sozinho, e a esperança de que nossos “barulhos” sempre acordem mais alguém…

  2. desculpa o inglês mas vou me comunicar melhor assim por enquanto –

    I’m not sure what the plan was around this operation. It seems like deliberate cruelty, a form of punishment worse than incarceration. To take such a large group of people and simply evict them from the terrible holes into which they had stuffed their lives is something that requires an incredible disregard for other humans. You destroy someone’s hell and push them out into a world where they don’t even have a gutter to sleep in. Home is where you hang your hat but now the hat’s been thrown into the dumpster along with all the people.

    If they had been arrested at least the state would have some nominal responsibility for their health and well-being. As indigents they fall outside that remit and it’s okay not to give a shit.

    That’s probably part of it right there; these people aren’t seen as people. They are diseases, addictions, a drag on the system, a social blight, an embarrassment, a problem.

    From that perspective this strategy makes sense – out of sight, out of mind. If the tree is full of bad apples, cut the tree down etc etc.

    These aren’t short lived real estate and geography problems. They are life-long issues which can’t be solved with rubber bullets and high pressure water hoses.

    It makes me wonder if treatment was even discussed at the planning meetings. Did a single person in the room raise their hand and ask “Can we help these people get better instead of attacking them and herding them away to an uncertain fate?”

    Oh to be a fly on the wall that day…

  3. Luiz

    Deca, você pode ver e viver perto em 1993 já eu, pude viver por alí alguns anos antes e as coisas não eram tão tristes.
    Triste agora fico eu de estar longe e saber que as coisas mudaram, pena que para pior. Mais triste ainda fico por saber que suas conclusões realmente estão certas e que tudo aquilo que se “diz fazer” pela região e pelas pessoas que lá estão é apenas para encobrir as altas negocições da minúscula Elite Paulista.
    Mas fico feliz e orgulhoso de ler tudo isso e poder saber que foi escrito por você.
    Te amo.
    Tio Nando

  4. Pingback: O graffiti fora da rua | cidadeando

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