Rua dos Ingleses

Éramos jovens.

Digo… ainda somos relativamente jovens, 28 e tals… uma moleca, segundo meu amigo Maneco Magnésio… só que já faz 10 anos.

Éramos amigas.

Não que não sejamos ainda hoje. Mas é diferente, muito diferente.

Éramos jovens. Trabalhávamos juntas. Almoçávamos juntas. Fumávamos juntas. Poderia dizer que tudo isso acontecia nas imediações da Av. Brigadeiro Luis Antônio… mas acho mais poético dizer que tudo acontecia nas imediações da Rua dos Ingleses.

Trabalhávamos exatamente na Rua dos Ingleses, mas não almoçávamos por lá. Tínhamos que nos deslocar. Isso não era um incomodo em si, mas havia uma questão:

<<Onde fumar?>>

Nosso sonho, o ideal, o justo seria um banco de praça. Uma praça bonita, bem verde com algumas margaridas.

Não há praças ou algum verde confiável nas imediações da Rua dos Ingleses.

Poderíamos sentar na frente de um teatro cheio de mendigos. Como boas moças, não ficávamos por lá.

Poderíamos sentar na frente de um hospital cheio de camelôs. Éramos boas moças, não ficávamos por lá.

E a gente circulava, desesperadas, procurando uma sombra… um espaço qualquer onde pudéssemos fumar… longe dos olhos dos colegas de trabalho, dos donos de restaurante, de caras que mexiam com a gente pelo simples fato de usarmos calcinhas.

Até que um dia achamos uma rua.

Ela não era sem saída. Era pequena, com paralelepípedos. Levava nada a nada. Tinha vários sobrados antigos. Uns bem cuidados, outros nem tanto. Ninguém por lá, nem cachorros. Poucos carros… um meio-fio nos esperando, limpo, lindo.

Finalmente! Alívio! Sombra! Água fresc… NICOTINA!

Durante alguns dias ficamos por lá, fumando e conversando. Sem más intenções, como boas moças… ou não.

Mas fomos descobertas. Fomos combatidas. Não, não podíamos parar nas imediações da Rua dos Ingleses. Uma velhinha de um dos sobrados pegou a arma que tinha disponível – uma mangueira – e jogou água fria no nosso meio-fio.

Todo dia aquela água fria.

Água fria.

Descobrimos que em São Paulo não se pode parar.

Nem para fumar.

Nunca.

Raquel Foresti

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7 comentários sobre “Rua dos Ingleses

  1. É… se fosse só fumar…
    A rua (ou a frente da casa) virou espaço privado também, ou extensão dele. Claro, os paulistas têm que ganhar alguma coisa com isso. Desde que proibiram as gelosias, lá pelos idos do séc. XIX, e obrigaram a usar janelas de vidro, a casa recuou e ganhou quintal na frente. Ou seja, o espaço privado diminuiu. Ou não – ele se estende até a calçada também.

  2. não preciso nem ir longe… na minha casa, se pára alguém na calçada a gente já fica olhando estranho e pergunta se quer alguma coisa. A ordem é circular, circular… ou nem isso, em ruas ‘particulares’ em bairros de alto padrão sobem portões para que as pessoas nem passem por elas… nessas ruas estão casas de juizes, altos funcionários públicos, …

  3. passei minha infância indo “trabalhar” com meu pai aos sábados, nesse mesmo lugar de vcs. boas lembranças…! ruazinha muito deserta mesmo aos sábados, delimitando o grande contraste entre os prédios e movimento de carros da brig. luis antonio com a tranquila e quieta rua dos franceses…

  4. Sim, esta ‘transiçao’ tb me espantou… temos a brigadeiro suja, barulhenta, aglomerada… transitamos pela rua dos ingleses e logo chegamos na dos franceses, calma e com predominancia de predios residenciais…. ainda há muito o que falar da rua dos ingleses, mas por enquanto é isso hehe

  5. Alguém sabe o que a lei diz a respeito das calçadas? São de quem?

    Sempre achei interessante em Nova York que muitos edifícios comerciais geralmente tinham uma fronteira delineada entre o espaço publico e o privado. Se algum dia passarem por la repara que em frente de muitos prédios grandes tem uma borda de ferro, embutida no concreto da calçada, seguindo o perímetro da propriedade.

    De um lado você e cidadão, no outro lado você pode ser considerado invasor e tratado como inimigo.

  6. Palavras de Leila Petrini:

    ‘aqui em sp, pelo menos, quem regulamenta é a prefeitura, através de suas secretarias. tecnicamente, a calçada é pública (o lote faz divisa com calçadas), mas o dono do lote frontal é quem deve zelar por ela, inclusive com direito a pagar multa caso não o faça. uma puta zona.’
    ..

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