A face de Arafat

Os espaços são simbólicos. Em São Paulo podemos reconhecer… há o espaço dos ricos, dos novos ricos, da classe média, da nova classe média… até na Rua Augusta podemos delimitar quase milimetricamente as fronteiras invisíveis onde cada um pode estar. E ai daquele que desafia essas fronteiras… corre o risco de ilustrar até a capa da Vejinha.

Mas ainda se acredita na falácia de que no Brasil, portanto em São Paulo também, todo o ódio étnico, político, religioso que reina fora de nossas fronteiras políticas, aqui não se reproduz. Quem nunca viu uma reportagem no telejornal da tarde a imagem de um muçulmano e um judeu tomando café juntos?

Pois é, na real, a vida não é bem assim.

Deu na FolhaSP: em outubro, parte dos judeus do centro de São Paulo ficou incomodada com a restauração de um dos painéis da estação Marechal Deodoro do metrô. O principal motivo é a inclusão e destaque dado à imagem do líder palestino Yasser Arafat (1929-2004) em meio aos rostos que compõem o painel sobre a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, de Gontran Guanaes Netto. Mais uma vez: INCLUSÃO E DESTAQUE. O rosto de Arafat não estava na obra original, foi incluída. Detalhe importante para quem não mora em SP: Metrô Marechal Deodoro é o que há de mais próximo do bairro de Higienópolis, onde vive grande parte dos judeus de São Paulo. Enfim, se quiser ler o causo todo o link é este.

Seria fácil e raso simplesmente dizer que judeus ou muçulmanos não podem delimitar espaços de atuação do artista na cidade. Só que isso não resolve a questão. Afinal, o que é a cidade para eles? Qual carga simbólica é incorporada a São Paulo? Onde a intervenção artística entra nisso tudo?

Poderíamos dizer que “aqui” (SP, Brasil), fora do território do conflito original, o artista deveria ter liberdade de inserir a face de quem bem entender no seu trabalho, inclusive a de Arafat. Mas não esqueçamos: definir o “aqui” não é tão simples assim. O “aqui” de um povo não é ligado a um território, necessariamente. Judeus e muçulmanos carregam suas crenças, valores e modo de vida para onde estiverem.

Uma de nós lembra-se de um israelense que falou emocionado que embaixo do muro das lamentações estaria o templo do rei Salomão e que aquele templo dava a ele sua identidade judaica. Já um amigo palestino disse com raiva que, por proibição de Israel, hoje não pode mais visitar o muro, sagrado aos muçulmanos. A outra se lembra de uma mesa organizada pelo Largo São Francisco para refletir sobre os seis meses posteriores ao 11 de setembro. Num ponto, um judeu e um muçulmano levantaram uma discussão quase silenciosa de como tanques são necessários, de como crianças com pedras são necessários.

Nas conversas destas duas blogueiras sempre se aponta para o fato de que não somos capazes de entender o emaranhado de significados – e emoções – que envolvem a história pessoal e coletiva de muçulmanos e judeus. Entendemos questões políticas, sociais, culturais… mas não sabemos o que é ser judeu, o que é ser muçulmano.

Apesar de reconhecermos que essa relação entre espaço e cultura é complexa, o conflito não deve ser legitimado, o que ocorreria caso a face de Arafat fosse retirada da obra de Gontran Guanaes Netto. Por isso, somos contra este tipo de ação que legitimaria esta fronteira invisível.

E esta discussão não termina aqui.

Raquel Foresti
Sandra Oliveira

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6 comentários sobre “A face de Arafat

  1. Nosso primeiro texto onde realmente escrevemos juntas 😀
    Discutir com a Raquel é sempre um prazer. E esse texto é especial pra mim, já que o blog nasceu a partir de nossas conversas, discussões e divagações sobre a cidade.

  2. Ah, não deu, certeza que não deu. A ideia ficou muito focada no painel. Tiramos, inclusive, uns pedaços de nossa discussão sobre judeus e muçulmanos… E os comentários das pessoas no facebook também ajudaram a pensar outras questões. Em breve postamos uma continuação!

  3. Meu.. nunca tinha reparado nessa discrepância de Sampa… Muito pelo contrário, sempre achei sampa muito bem miscigenado e talz, mas vendo por este ponto, vocês até que tem razão.. Eu morava pertinho de Higienópolis, e parece que dava até para ver um muro separando o bairro de Santa Cecília e Consolação.. hehehehehhee

    Talvez eu nunca tenha reparado tanto, em São Paulo, embora tenha essa divisão territorial as pessoas ainda se misturam um pouco. Morei um tempo em NY, e lá isso é mais evidente e forte ainda. Bairro de Negro, é de Negro, se eu por exemplo, entro no Harleem ou no Bronx, a galera olha torto mesmo. E claro que o oposto também acontece. Mas é engraçado ver rodinhas de negros, rodinhas de latinos, rodinhas de americanos, rodinhas de Chineses, rodinhas de Japoneses (nem os Asiáticos, e muitos dos latinos de diferentes países se misturam), rodinhas de indianos, e por aí vai… E o mais curioso, é q sempre tem um brasileiro em cada uma das rodas.. hahahahaha Eles ainda tem coragem de chamar NY de “The melting Pot” que é algo como o caldeirão que derrete e mistura as coisas.

    PS: A coisa mais difícil de achar em NY é um Nova-Iorquino! rsrsrsrs

    1. “Um pouco”, isso é verdade. Se misturam um pouco. Como São Paulo recebeu muitos imigrantes no começo do século XX e a cidade cresceu rapidamente, não foi possível manter os guetos ou bairros privados, mas eles persistem. E como existem. E estamos apenas falando de habitação… mas se descermos para a questão de sociabilidade, essas divisões tornam-se ainda mais claras. Mas olha, o que vc falou sobre NY é um bom tema pra fazer um texto e postar aqui!! ta convidado!

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