Românticas, a Augusta e eu

Outro dia eu estava em um bar na Augusta, e resolvi sair antes que os outros. Vendo que eu estava sem carro, uma amiga disse para eu ter cuidado ao andar pela rua. Cuidado? Sim, a Augusta é perigosa.

Nunca vi a Augusta como um lugar perigoso. Pelo total contrário… acho a Augusta um tanto… romântica. Foi ali que começaram meus namoros. Os melhores filmes que eu vi acompanhada foram por aqueles cinemas. E foram naqueles bares que se realizaram os primeiros e tantos outros encontros. Não havia melhor lugar do que lá para ter um dos meus fetiches preferidos: ver o pretendente destrinchar todo seu saber intelectual. Ah, isso é demais romântico! É como a moça que ficava na sacada ouvindo o amado dizer suas trovas. Era nas lojas de CDs que conversávamos sobre música, encontrávamos nossos gostos em comum, planejamos presentes musicais e outras delícias sonoras. Ali dei abraços apertados de saudade depois de pausas e distâncias. E foi por ali que senti mais segura minha mão nas mãos de outra pessoa. Foi nas redondezas que morei quando resolvi me casar. Ou foi nas redondezas que resolvi morar quando me casei. Nessa época, as primeiras pessoas que viam meu rosto cansado depois de um dia de trabalho, ao descer do ônibus, eram os seguranças dos puteiros da região. Eles tinham aquele olhar malicioso de quem paquera uma puta, mas eu me sentia bem e seguia. Era a Augusta, o quintal de minha casa.

Entre cervejas e sorrisos, vimos os bares serem reformados, crescerem, tornarem-se mais bonitos e cheios. Tristemente, vimos o casarão que sonhávamos restaurar ser colocado abaixo para virar um prédio. E, durante o luto do casamento acabado, não andei naquela rua.

Há um ar de sacralidade que envolve a Augusta. Essa sacralidade do romance. Nunca andei pela Augusta com alguém que não houvesse a possibilidade de uma ligação afetiva. Não, jamais. Ah, sim, com amigos é permitido. Porque entre amigos podemos compartilhar esses lugares que nos causam boas sensações.

Eu estava saindo de uma balada e me despedi das pessoas.

_Você vai sozinha? Não quer que eu te leve?

_Não, obrigada. Hoje eu vou sozinha.

A Augusta é romântica demais para eu andar acompanhada com alguém que representa apenas um encontro casual. E, devaneando, caminhei sozinha pela rua.

Sandra Oliveira

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11 comentários sobre “Românticas, a Augusta e eu

  1. “Não havia melhor lugar do que lá para ter um dos meus fetiches preferidos: ver o pretendente destrinchar todo seu saber intelectual. Ah, isso é demais romântico!”, que demais isso…
    Olha, San, eu diria que a Augusta é a minha praia. Ou melhor, por aqui, os primeiros encontros sempre acontecem assim:
    – vamos nos encontrar?
    – sim, claro. onde?
    – vamos andar na praia…
    E lá se vão os casais, se formando com a praia como cenário… hehe
    Ao mesmo tempo, tenho um amor pela Augusta, muito parecido com este seu, tb vivi encontros aí. Ali na Augusta, os encontros foram típicos de universitários ou pós-estudantes, haha. Igualzinho a sua frase acima. Nossa, que engraçado ver alguém descrever aquilo que vc já fez um dia, né.
    Aliás, estive aí no sábado e comentei com um amigo meu, gosto muito deste lugar, eu poderia ficar sem a praia por uns bons tempos, se pudesse viver esse frenesi da Augusta.
    É muito romântico? Sei lá… É fantástico.
    Adorei o texto 😀

  2. Acho muito romântico 🙂 E adorei essa sua frase “E lá se vão os casais, se formando com a praia como cenário…” E a praia, como a Augusta, se transforma… e a gente pode fazer relações entre o que estamos vivendo e esse cenário.
    Cada lugar na cidade guarda um significado pra mim. Só não posso falar sobre todos, porque assim todos os meus segredos seriam revelados rs

  3. Meu primeiro passeio pela Augusta foi ligeiramente traumático. Não pela ‘identidade’ da rua ou por alguém que encontrei lá, mas por uma confusão de amigas malucas. Mas foi tão traumático, mas tão traumático que demorei quatro anos pra voltar lá. E com outro grupo de amigos. E em um dia bem melhor.

    Não sei como é para os outros, mas andando pela Augusta eu me sinto “muito em SP”, difícil de explicar mas não tem como ser de SP e não ter essa sensação de “é aqui que a galera ‘do mal’ se encontra”. É breguinha, mas é o sentimento que dá. É mais ou menos como andar pela Paulista com um toque mais alternativo, um pouco mais independente. E eu gosto 🙂

  4. Poderia falar o mundo sobre a Augusta…. mas, por hora, lá foi meu primeiro despertar para cidade… porque por alí existiam cinemas que me levariam a mares nunca dantes navegados. Eu tinha 14 anos e ia sozinha numa Augusta que ainda não era tão Vila Madalena assim.

    Texto bom, San, é aquele que nos revela um mundo e nos leva ao nosso próprio.

  5. João Samuel Junior

    Excelente texto Sandra, foi lá que eu encontrei meu amor sem querer na rua Augusta. Não é um local que eu frequento sempre, mas nem imaginava que esta rua tão louca pudesse ser um local romântica. E é, hoje faz cinco meses que estamos juntos!!!

    Abração e parabéns novamente,

    Junior

    1. Poxa, Junior, cinco meses já? Parabens pra vcs! Mas, meu querido, quando a gente é louco, os lugares românticos só podem ser os loucos tb rs
      E, Rachel, obrigada pelo elogio!

  6. Camila L.

    Olá, Sandra! Td bom?
    A história c/ aquele a quem mais amei tbm começou na Augusta e terminou na Augusta. Realmnt, é uma rua histórica e de histórias, muuuuitas histórias.
    Bjs e parabéns pelo texto e pelo blog!
    Camila L.

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