Azul

Saí de casa apenas para comprar um pacote de coadores de café.

Não de cafeteira, mas aqueles que a gente coloca num suporte sobre um bule.

Não colocava o pé para fora havia dias. Apenas saía a trabalho e obrigações várias, dentre elas: o café.

Se eu pudesse, usava café como colírio.

Há dias que ando como zumbi, sem motivação, me empurrando, sendo empurrada, boca seca, olhos semi-cerrados.

Café, coadores. É, o papo é sobre os coadores.

É nada.

O papo é sobre o caminho, de casa ao mercadinho da esquina.

Tinha acabado de chover, ainda caía pingos da copa das grandes paineiras que sobrevivem no meu bairro.

Eu caminhava, devagar, empurrando, sendo empurrada.

Até… até que naquele dia a mais inerte das pessoas sentiu…eu  senti o azul.

Não havia como. Uma luz, luz azul. Sem sol, nem nuvens escuras demais. Era azul, azul demais.

Hora mágica?

Não eram 6 horas, nem da manhã e nem da tarde. Era apenas o momento após uma chuva.

Me senti envolvida pelas camadas de azul, azul profundo que – quiçá – era emaranhado por um cinza estranho.

E neste azul, esqueci do coador de café.

Lembrei de você.

Você não tem nada a ver com azul: seus olhos não são azuis, seu cabelo não é azul… nem mesmo me lembro de você ter vestido azul alguma vez na vida.

Mas o azul, naquele cinza, me levou a você.

Suspirei, não dava conta de você em mim num caminhar banal até o mercado.

Andei confusa, em ruas confusas, de calçadas e vira-latas confusos… andei em você.

Perdida, já não me lembrava do café… só de você, do azul.

Raquel Foresti

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14 comentários sobre “Azul

  1. “Se eu pudesse, usava café como colírio.”. “Mas o azul, naquele cinza, me levou a você.”. Fantástico, Rach. Já te disse, vc me surpreende com a beleza de seus textos.
    Adorei a poesia indicada pela Day tb…
    E eu sempre envolta em algum azul..

  2. Nossa, Dayane, gostei muito do texto. Nem sei se o meu texto tem o mesmo ritmo mas acredito em vc. rs. Fico feliz que tenha gostado, aliás… mais feliz porque causou em você algo a mais, algo que toca.

    E, San, nós sempre envoltas – e dandos voltas – em algum azul…

  3. Oi Raquel!!
    Sim, lembrei na hora dessa poesia. Engraçado, né? Na verdade, acho que a poesia (no caso, do seu texto aqui) tem dessas peculiaridades, sentir algo novo ou nos remeter a alguma lembrança. E quando li seu “Azul”, me transportei para boas recordações, por causa também da “Chuva interior”.
    Olha! Legal poder trocar essas figurinhas ‘literárias’ com vcs. Ando fazendo propagando do blog Cidadeando por aí. Gosto muito da proposta aqui. E o mais curioso, as cidades têm tido um outro olhar meu. Por exemplo, hoje fui andar de bicicleta até São Vicente (moro em Santos) e fiquei olhando pra praia, pros prédios e admirada pensei, como é engraçado isso de vc descobrir uma cidade, o jeito que ela se molda ao espaço geográfico, a forma que as pessoas de adaptam e criam seus costumes. Fiquei com vontade de escrever algo sobre isso… Eu, minha bicicleta, Santos, São Vicente e a praia..
    Um beijo pra vcs, não nos conhecemos, mas tenho a sensação que o café e a prosa correriam bem, em alguma cidade por aí. 😀

  4. Ah, pra mim o azul teve outro sentido… pra mim é a epifania, a descoberta de algo essencial sem ser necessariamente ligado a algum fato que a desencadeie. O azul não veio por causa dos pingos nem de outro elemento externo… também não veio da recordação dos olhos, cabelos ou roupa azul. O azul, pra mim, era algo assim: silencioso, mágico, leve. A pessoa que usaria o café como colírio, de repente… é envolta em um azul terrivelmente leve. Tão leve que ela não dá conta de ter esse azul em um caminho tão banal. Adoro esses momentos de epifania.
    E, poxa, Day, assim que tiver um tempinho, desenvolva suas ideias!! E acho q podemos sim marcar um dia um café, cerveja, encontro literário que seja pra gente prosear mais sobre nossas ideias!

  5. Engraçado como uma mesma coisa nos traz referências tantas… qd esse texto surgiu em mim me remeti imediatamente à música cantada por Sosa… que fala de um azul que é verde também. Enfim, o meu é também um cinza estranho.

    Bacana, Day, realmente o que a San e eu nos propomos é o despertar desta percepção do espaço, especialmente o da cidade, a vida nesse espaço… Penso que merecemos tomar um café, uma breja, um caldo de cana para celebrar a poesia…. mas pensamos que em S. Vicente ou em Santos, né? Todo morador da cidade de São Paulo sente falta do mar….

  6. Ahh, Raquel, então, estão convidadas para descer a serra, quando quiserem.
    E tem duas coisas que podemos fazer por aqui, e tenho certeza que renderão muitos textos de vcs, andar de bicicleta na orla da praia e, outra, esse nem tão prestigiado por aqui: conhecer o samba do ouro verde, no Marapé. É de um grupo de amigos de infância, todos com mais de sessenta anos e que se reúnem num clube de bairro pra tocar samba de raiz. Pense num astral bom? São esse velhinhos…
    Olha, já comecei a rascunhar um texto sobre o Ouro verde, que o Flavio havia sugerido como tema. Mas queria também poder dizer sobre essa coisa de viver numa cidade onde todas as ruas acabam na praia. Enfim, vamos ver o que consigo, logo menos…
    E o convite está feito. Ficarei muito feliz de recebê-las para uma breja – ou água de coco… 😉
    Venham ver o mar…

  7. ‘O horror é um choque, um instante de total cegueira. O horror é desprovido de qualquer traço de beleza. Só vemos a luz violenta do acontecimento desconhecido que esperamos. Ao contrário dele, a tristeza supõe o conhecimento. Tomas e Tereza sabiam o que os esperava. O brilho do horror se apagava e descobria-se o mundo sob uma luz azulada e sua que tornava as coisas mais belas do que eram antes’.

    A insustentável leveza do ser
    Milan Kundera
    Circulo do Livro
    p.252

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