O Barroco e o leite derramado

Não me lembro a primeira vez que ouvi falar sobre Barroco. Mas me lembro da primeira exposição que visitei. Era O universo mágico do barroco brasileiro, em 1998, no prédio da Fiesp. Sim, era de fato mágico. Dois anos depois, na Mostra Brasil +500, novamente me deparei com uma exposição sobre o Barroco, que me fez, enfim, me apaixonar por aquilo tudo. O som, a luz. Entre troncos de árvores que simulavam uma floresta, lá estavam imagem de santos, santas e nossas senhoras da conceição, sempre com suas saias esvoaçantes, num movimento que não se acaba, pois não há calma no Barroco.

Foi nessa exposição que percebi que minha educação católica na infância me ajudaria a compreender códigos da arte. O caminho das flores roxas que eram substituídas pelas amarelas me lembrava o período da quaresma que antecede a Páscoa, a ressurreição de Cristo. Aquilo era o Barroco: o se afundar no escuro, na dor, para depois ter a alegria de uma páscoa, a certeza, uma fé explosiva e talvez impositiva, mas que de tão bela, inunda a todos e cala as reflexões racionais. O Barroco era estonteante.

Depois disso, viajei muitas vezes para cidades que abrigam obras barrocas, e olhando para o horizonte das cidades mineiras, entendi porque eram também cidades barrocas. Não apenas por abrigar as obras. Mas por serem essas cidades também como suas obras – opulentas, ondulares, cheias de dobras e desdobras, como disse Deleuze.

Na cidade barroca a arte não se contém na obra. Ela sai, transborda, como o leite fervente que sai da jarra. Foi talvez a primeira vez que me deparei com a ideia da cidade enquanto obra de arte.

Sandra Oliveira

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6 comentários sobre “O Barroco e o leite derramado

  1. San! Fiquei emocionada com seu texto, com essa parte aqui, principalmente: “Aquilo era o Barroco: o se afundar no escuro, na dor, para depois ter a alegria de uma páscoa, a certeza, uma fé explosiva e talvez impositiva”… Porque me senti numa obra barroca.
    E sabe por que mais? Porque fiz um trabalho com Deleuze na faculdade, onde tentava desmembrar num texto literário, nas suas sensações, como o texto discorre sobre o personagem e ambiente.
    Daí, agora, toda vez que leio um texto, procuro tais ‘sensações’. E aqui, vi isso, e achei genial, escrever sobre o Barroco e os ares da cidade barroca: “Na cidade barroca a arte não se contém na obra. Ela sai, transborda, como o leite fervente que sai da jarra”, e por fim, sentir-me dentro dessa atmosfera toda.
    Ah, obrigada pelo comentário lá no texto do Pedro e Cláudio.
    Um beijo 😀

  2. Poxa, Day! Obrigada 🙂
    Mas “me senti numa obra barroca”, isso sim é intensidade…. Mas fale… pelo menos pra mim é assim. Cada vez que visito uma cidade/igreja/obra barroca me vem essa sensação. A boca se abre, os olhos percorrem tudo, respiro fundo e só depois posso pensar um pouco sobre o que vejo. Acho que é uma das melhores formas de sentir essa sinestesia rs
    E Rachel, eu sinto isso. A pintura pode até ser escura, haver um certo repouso… mas nunca calma!
    Sim, o barroco me é estonteante!

  3. Nilza Camargo

    Citando Gilles Deleuze: “…A seleção dos signos ou dos afetos como primeira condição para o nascimento do conceito não implica, pois, só o esforço pessoal que cada um deve fazer sobre si mesmo (Razão), mas uma luta passional, um combate afetivo inexpiável em que se corre risco de vida, onde os signos afrontam os signos e os afetos se entrechocam com os afetos, para que um pouco de alegria seja salva, fazendo-nos sair da sombra ….
    …Os gritos da linguagem dos signos marcam essa luta das paixões, das alegrias e das tristezas….”
    Lembro-me também das flores, roxas e amarelas…creio que feitas pelos presidiários do Carandiru… Durante muito tempo guardei uma delas (roxa), que me foi ofertada por um de vocês. Depois, com o passar dos anos, a cor do papel crepon perdeu-se… mas as lembranças permaneceram. Foi um belo trajeto aquele, mais belo ainda o cenário das vilas mineiras do século XVIII. Grande beijo querida e, obrigada pelas reminiscências.

  4. Eduardo Peres

    San, esse texto me veio saturado de sensação. Meu filho viveu em Ouro Preto por sete anos, dos três aos dez anos de idade, e meu contato com a cidade e com as demais cidades do entorno se dava por causa dele. Por isso, o Barroco para mim é a carinha dele menino. De subir a ladeira onde está a casa de Aleijadinho segurando-o pela mão, de entrar nessa ou naquela igreja para ver arte e fugir do sol. Eu achava tudo lindo e triste. Deixar o Barroco e voltar para casa era deixá-lo lá, no exílio mineiro. Por isso me foi comovente este “não há calma no Barroco”. De fato. Que coisa linda de se ler. A metáfora da Páscoa e a citação de Deleuze são belíssimas também. Das últimas vezes que estive na cidade, li “Leite Derramado” (Chico Buarque, 2009). E você me vem com este “O Barroco e o leite derramado”. Seu texto tem quatro parágrafos, mas é imenso.

    1. Edu! Adorei seu comentário. O Barroco é assim mesmo, lindo e triste, como vc falou. Mas às vezes é muito alegre, exuberante, flutuante, delicado… extremamente dramático. É por isso que não há calma no Barroco, ele está sempre indo e vindo, transformando tudo no tempo (música) e no espaço (artes visuais). Se sua relação com seu filho naquele período tem a cara do Barroco, era realmente linda. Sobre o título, não me lembro mesmo de onde tirei essa relação com o leite derramado, mas pode até ser que tenha visto em algum lugar o nome do livro do Chico e me veio a ideia. Ultimamente tenho achado o Chico e o Caetano meio malinhas, mas gosto deles rs

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