O óbito

Ao redor daquela árvore, na esquina, normalmente há sacos e sacos e sacos pretos de lixo.

Normalmente não é possível passar cerca dela, não sobra espaço: ou eu ou o lixo.

Talvez.

Seguia e vi o tronco da árvore. A calçada livre. O lixeiro havia passado? Será? Talvez.

Segui, passando pelo caminho, me arrependi.

Não havia sacos e sacos e sacos pretos de lixo. Havia cheiro de mijo.

A árvore também era o mictório dos andantes passantes:  caninos, humanos, caprinos, sei lá.

Segui. Em meio ao cheiro, pois não havia mais como não passar por lá. Eu já estava lá.

A calçada explodia, as raízes daquela árvore se recusavam a se sufocar pelo concreto.

Mijo, lixo… concreto? Pedaços de concreto.

Caminhei, segui e, diante dos estilhaços de concreto, desiquilibrei.

Bambeando para meu lado esquerdo, fui meio que pisar de mal jeito mas… olho o chão antes de apoiar o meu pé.

Mijo, lixo, concreto, víceras…rato morto.

Pisei rente, muito rente daquele cadáver.

Me contorci para não ir para mais perto do bichano.

Asco e asco e asco.

Senti uma náusea que não me lembro de já ter sentido na vida.

Segui caminhando, tonteada, trêmula.

A imagem daquelas tripas, do cheiro do mijo, da lembrança do lixo, da calçada que me expulsava e me lançava para dentro do cadáver me acompanhou o resto do meu dia.

Queria esquecer, ir para um lugar ameno, ver um horizonte amplo… exposto, explosivo.

Mas não há horizonte. Há víceras de um rato morto e o cheiro de mijo.

Raquel Foresti

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