O valor de Z

6:45 am: Raquel passa correndo pelas ruas X, Y e Z

Correndo desesperadamente por entre as ruas de um bairro pós-operário, pós-tudo… saindo da rua X para chegar em Z passando por Y.

Não corro por prazer, mas pela simples necessidade do atraso: não posso perder a hora!

Entre carros com seus motoristas insones, buracos na calçada, jornaleiros, trabalhadores com suas mochilas recheadas de marmitas, ah… a lista de tudo o que compõe minha paisagem!…

Corro, corro, corro… chego a um cruzamento banal entre as ruas Y e Z… sem semáforo, onde os carros passam loucamente, sem olhar, sem parar, sem pensar…MAS HOJE NÃO! OS ENFRENTO! PASSEI NA FRENTE DELES: BREQUE, BARULHO, SUSTO.

Atravesso ilesa: eles pararam, EU VENCI!

6:45 am: William em seu carro na rua Z gritando (K!)

Meu autorama diário, (K!) de rotina! Estou no meu carro – automóvel! – e faço um percurso banal em 1 hora… perco 1 hora da minha vida por causa da lentidão dos carros que se amontoam no meu caminho… talvez se fosse a pé chegaria mais rápido… talvez… ônibus? Não, obrigado. Tenho pena quando eles, os ônibus, param a meu lado e vejo os rostos cansados e esmagados naquela lata cheia de baratas.

Uso carro – automóvel! – e pago conscientimente o preço disso: sentado, sozinho, ouvindo meu som, sofrendo fechadas insanas na lentidão da rua Z.

Andando… lentamente, andando… passo por X… agora em Y… cheguei em Z! Andando… posso passar… passando…. rua sem semáforo… maravilha! Os pedestres que me aguardem…. vou em frente e…engato a primeira e… BREQUE!

(K!), Quem é essa doida que se meteu em frente ao meu carro! Não a atropelei por…. Raquel?

11:45 pm: Raquel em sua casa na rua X

Que dia! Quase perdi a hora, quase fui atropelada, quase… quase… quase… quase tanta coisa ruim!… Sobrevivi!

Agora sento-me em frente ao meu computador… quero ver emails, olhar o facebook… descolar meu pensamento do cotidiano citadino… relaxar na minha casa na rua X esquecendo Y e Z.

Facebookeando: Raquel se encontra com William

William  Meu, hj quase te atropelo… vc correndo para atravessar a rua Z para pegar o busão!

Raquel Era vc?!? kkkkkk! Morreria atropelada sem perceber q vc estava lah…

Horário indeterminado:

O olhar, William e Raquel

ou

O valor de Z

Mergulhados em nós mesmos não nos damos conta dos nós onde nos encontramos.

Corri na sua frente. Brequei para você. Não te notei. Te reconheci.

Na genialidade da rua percebemos que tudo – ou qualquer coisa – é mais do que trânsito.

Na rua Z. Não morri. Não te atropelei.

Na rua Z . Não nos falamos. Nem nos vimos mutuamente.

Neste nó onde o que podemos fazer é parar e andar. Neste nó um momento que passou… resgatado, apenas, no lugar esperado… longe um do outro… ligados por uma rede que não é a nossa.

Quero uma rede entre os postes da rua Z.

                                                                                            Raquel Foresti

* este texto pode ser alterado a qualquer momento, sem aviso prévio ou a menor consideração pelo leitor. 😉

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5 comentários sobre “O valor de Z

  1. Muito bacana, Rachel!
    E legal ter visto todas as metamorfoses que o texto passou rsrs
    De um texto de amigo pra amigo ele se transformou em algo totalmente cartesiano, quase despersonificado… Como geralmente a gente faz no dia a dia…
    Outro dia tb encontrei um amigo na rua… mas eu nem percebi pq estava imersa em meus pensamentos… e pô, ele tava de óculos escuros, nunca reconheço ng de óculos escuros! rs
    Agora veja… ser quase atropelada por um amigo… essa grande pequena cidade!

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