A noite, a cidade e uma sombra qualquer

Antes das onze da noite, Maia chega apressada em seu minúsculo apartamento de 30 metros quadrados na Rua Barata Ribeiro. É quinta-feira, noite quente de lua cheia. Daquelas luas cheias que brilham como se quisessem aparecer mais que as outras. Maia toma um banho rápido, sem lavar os cabelos, coloca um jeans e uma blusinha feita por uma amiga estilista. Pensa em colocar também seu clássico all-star, mas combina mais um tênis sem marca que herdou de sua irmã. Coloca sua mochila mais colorida nas costas e sai.

No caminho, andando pela Paulista, pega o celular, liga para sua namorada. [Ela se mudou mês passado para o Rio de Janeiro, ganhou uma bolsa de mestrado por lá]. Ninguém atende. Chateada, Maia olha para a tela do aparelho. Uma foto, um papel de parede. As duas em um abraço apertado.

“Já faz um mês”.
(…)

O pessoal da faculdade já deve estar no bar, de certo já estão alegres e eufóricos. Maia ainda não. Está atrasada. E já nem se lembra do nome do bar. Pega novamente o celular… e, de repente… a bateria acaba.

“Merda! E agora?”.

Em pleno século XXI e sem mais contato direto com o mundo. Desce a Augusta procurando seus amigos. A cada bar, aumenta a raiva. A cada esquina, a ansiedade. E também o medo da solidão, que vem caminhando vagarosamente, subindo a rua na direção contrária.

“Meu, por que não carreguei o celular antes? Que burra…”.

Talvez quisesse telefonar para seus amigos. Talvez quisesse apenas saber onde estão. Talvez quisesse apenas ouvir Clara dizer oi e sentir que está tudo bem.

“Que será que Clara está fazendo agora?”

Como se fosse num súbito, um sentimento estranho bate. Maia não quer mais encontrar ninguém, tão só ligar para Clara, tão distante, no Rio. A saudade quase estrangula seu peito. A insegurança põe a mão em seu ombro. E a solidão, que subia a rua vagarosamente, também.

Sem vacilar, muda a direção, sobe a rua, caminha de volta pra casa.

Maia era uma garota muito bem relacionada, sempre acompanhada de muitos amigos, tinha um papo ótimo, se dava bem com todos. Sabia o que de melhor acontecia na cena cultural de São Paulo, todos a seguiam em suas ideias e sugestões de eventos. O que estava acontecendo agora então? Por que se sentia tão sozinha? Tão deslocada do eixo da Terra?

Pega o celular novamente, na esperança de haver algum resquício de bateria. Nada. Apenas o maldito reflexo das luzes da rua. Aperta o passo. Quer falar com Clara o mais rápido possível. Quer matar a saudade e o amargo seco que agora saliva.

Maia já podia ver seu prédio quando todas as luzes se apagaram. Apagão, desses que afligem até a maior das cidades. Não há mais energia elétrica na região.

“Puta-que-o pariu!”

Sobe as escadas e entra no apartamento. Liga seu laptop. De fato ainda há bateria, mas não há internet. Não conseguiria falar com Clara. O celular dela não recebe chamadas a cobrar. Talvez sair para comprar um cartão telefônico. Mas não tem dinheiro, somente cartão de débito. E não há energia elétrica para usar o cartão.

O que tinha de perdida, agora se transforma no mais profundo desespero.

Não sabe o que fazer. Caminha pelo apartamento de 30 metros. Vai até a geladeira, toma um copo de suco. Caminha pelo apartamento de 30 metros. Põe pra tocar um som da Regina Spektor. Caminha pelo apartamento de 30 metros. Deita no seu sofá amarelo. A música se cala, com o laptop já sem bateria.

Em seu próprio silêncio, Maia para por cinco minutos. Além de sua respiração ofegante, só escuta o som das buzinas. Incessantes, devido ao caos que se formou lá fora. Abre a janela e vê os carros se acumulando, a cada espaço da rua. Buzinas e mais buzinas. Carros e mais carros. Tudo está caótico. A rua e o seu coração.

Deita novamente no sofá amarelo. Começa a chorar. Precisa chorar. Nem que seja por um minuto.

Horas madrugada adentro, todas as preocupações de Maia já se liquefizeram em lágrimas, que até já se secaram também. Agora não há mais carros buzinando. Talvez já não haja sequer pessoas na rua. De onde está, vê apenas janelas escuras do outro lado. O apagão continua.

Ainda deitada, meio de lado, com o braço direito esticado para fora, olha para a fita colorida do Senhor do Bonfim que está amarrada em seu pulso direito. Lembra-se de como foi boa aquela viagem. Faz um ano e meio, mais ou menos. A fitinha já está bem gasta, mas cheia de estilo. Um semissoriso aparece.

Sonolenta, Maia percebe a sombra do seu braço no piso de taco e tem um sobressalto.

“A energia está voltando?”.

Não, não está.

“Ah, é só a lua.”.

Adormece então, na companhia das sombras da cidade de São Paulo,

sozinha.

Flavio Siqueira
Sandra Oliveira

Anúncios

10 comentários sobre “A noite, a cidade e uma sombra qualquer

  1. Flavio, adorei a parceria! Invadir sua personagem, pensar suas dores, angústias, ansiedade… dar cor, luz e sombra. No fim, adorei o texto. E acho a Maia quase minha também rs. Espero que surjam outras parcerias entre nós! 😉
    Agora a Maia só precisa me passar outras dicas musicas rs

  2. É San, a personagem estava parada, há tempos estava sem vida, ali, encostada. O texto ainda não era texto, só palavras reunidas, sem cor, sem luz…Essas palavras deram sorte, encontraram alguém que chegou “chegando” e deu aquele toque mágico. Aquele toque como nos filmes infantis. Essas palavras quando tocadas por você, saíram das sombras, e agora brilham, e agora viraram texto. Com certeza a Maia agora é sua também, não só a Maia, mas também o sofá amarelo, o apartamento de 30m (esse é bastante seu rs), a Augusta, a Regina Spektor e a minha parceria também!

  3. palavrasbambas.blogspot.com

    Parabéns pelo texto!
    E olha que incrível: um texto em parceria narra a solidão.
    Gostei muito dos detalhes, “Maia olha para a tela do aparelho. Uma foto, um papel de parede. As duas em um abraço apertado.” e da simplicidade da escrita. Sou fã da escrita simples e cheia de emoções.
    Penso que o texto tem um tom jovial, tanto quanto ter vinte e poucos anos e todos as perguntas e medos que (nos) cercam. O que implica confrontar todas esses desníveis: perdas, saudade, amores, dúvidas…
    Além disso, o texto tem uma angústia de SP. E como diz o cantor Criolo: Não existe amor em SP. Ah, sei lá. Não existe? Não existe, quando somos engolidos pelos blocos de prédios e feiúra de sampa. Mas se olharmos para o lado, todo mundo quer amar, no final das contas é isso… o difícil é assumir. Seja em SP, Paris ou Xangai.
    E no outro dia, pode ser que Maia acorde com o um email carioca de saudades da sua namorada. E aí, a tragédia paulistana cai por terra…
    Ai, perdoe-me a intromissão, San! O Flavio pediu um pitaco e me empolguei… hehe
    Um grande beijo e vida longa para a parceria, com mais textos!

    1. Dayane, a Maia tem esse jeito meio adolescente mesmo… mas acho que essas coisas afligem a qquer idade, a qquer pessoa! Acho que por isso foi possível ser escrito por duas pessoas. Todo mundo sabe um pouco como é isso rs.
      Sobre as frases curtas, tb adoro o minimalismo. Gosto da palavra rápida. Do ato feito.
      E sobre não haver amor em São Paulo… ah, poxa vida! Eu adoro essa cidade cinzenta e charmosa! Acho que ela só é feia pra quem precisa de uma desculpa pra não assumir esse desejo 😉
      E são bem vindos os elogios/críticas/sugestões! O Cidadeando nasceu com a proposta de discutir a cidade… E está convidada a participar tb, quem sabe a gente não lê alguma coisa sobre Santos por aqui? Super beijo!

      1. A Maia tem uma ternura inquietante. Gosto dela, acho que me identifico um pouco… E o nome caiu bem, também. Foi dado pelo Flavio?
        Sim, Sandra. SP tem amor, porque amor se dá entre pessoas, e isso independe da confusão do meio… Caso contrário, as histórias de amor só poderiam acontecer em ilha deserta. hehe!
        Logo, logo, quero passar uma temporada por aí, pra poder amar e desamar SP com os meus próprios olhos!
        Gostei da ideia do blog, como um todo – inclusive o título. E aceito o convite. Pode lançar o desafio/ tema! E vou tentar falar de algo daqui, perto do mar…
        Beijo 🙂

  4. Sim, Dayane, os nomes são do Flavio! Tb achei que caíram muito bem (até a involuntária relação da Clara com a questão da luz/sombra que perpassa pelo texto).
    Bom, o tema já está lançado pelo Flavio!

    1. Eita! Desafio aceito.
      Mando em breve! Ok?
      Estou numa correria aqui, por causa da Futuráfrica (projeto cultural de música em Santos), que faço parte hoje.
      Assim, aproveito para convida-los para um evento bem legal que acontecerá no dia 8 de outubro, no Sesc de Santos, em parceria com a Futuráfrica. O lançamento da biografia do Fela Kuti, considerado pai do afrobeat, tem uma obra musical fantástica. Ativista político, lutava contra opressão da ditadura nigeriana, e difundia em sua música toda sua indignação e revolta. O seu biógrafo, o cubano Carlos Moore, que estará presente, falará sobre a música de Fela Kuti; e depois ainda vai rolar discotecagem de afrobeat, com performance de uma bailarina também.
      É… a cidade aqui está vivenciando muitas coisas interessantes… Legal encontrar o Cidadeando, porque tb penso muito sobre o que me encanta e desencanta nas cidades, principalmente em Santos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s