Pra que servem os vizinhos?

Alguns textos atrás, falamos sobre os flanêurs. Essa gente que passeia pela cidade pelo prazer de observá-la – suas formas e suas pessoas. Hoje é sobre entorno da casa. O vizinho. Esse ser tão próximo e tão distante.

Há cerca de oito anos, descobri Eduardo Alves da Costa, minha última grande referência poética. Ele escreveu uma poesia que adoro sobre esse tema, de maneira bem humorada, tão própria dele. A parte que mais gosto é quando fala dos vermes de O Encouraçado Potemkin. Sempre que leio essa parte, imagino uma tirinha do Niquel Náusea , hilário! [fica a dica pra Fernando Gonsales!]

Não serei eu a primeira a jogar pedras, porque mal sei o nome de meus vizinhos. Mas seu texto é algo que me instiga. Afinal, pra que servem os vizinhos?
Sandra Oliveira

Para que servem os vizinhos?

Hoje a gorda não me disse bom-dia.
Esta é a terceira vez na semana
em que ela finge não me ver.
Moramos lado a lado há onze anos,
Temos um pé de chuchu em comum
(que, por sinal, deitou raízes
do lado de cá do muro)
e a filha-da-puta nem me diz bom-dia.
Se eu vivesse na China, podes ter certeza,
todos se curvariam e me diriam
bom-dia. Os paralíticos, inclusive.
É uma questão de cultura.
Não que isso me faça falta,
a mim, pessoalmente; mas estou certo
de que é o mundo inteiro quem perde
quando um sujeito sai de casa,
para o trabalho, um sujeito honesto,
cumpridor dos seus deveres, e a vizinha,
seja ela gorda ou magra,
não lhe diz bom-dia.
Não sei se já reparaste nos pardais,
esses pássaros vulgares,
mal-ajambrados, sujos. Eles nem sequer
têm uma corzinha nas penas, não sabem cantar,
mas se um deles sai para o trabalho
podes estar certo que todos os outros
lhe arrulham um sonoro bom-dia.
Até os vermes, nas profundezas
abissais da carne pútrida,
maneiam a cabeça quando se cruzam
como se vê na antológica cena de
O Encouraçado Potemkin.
Ontem a gorda colheu uma bacia de chuchus,
com uma avidez que fez tremer o muro;
e não me disse bom-dia.
Afinal, para que servem os vizinhos?!
Mas não se preocupem, eu tenho
meus informantes. O proprietário
vai colocá-la no olho da rua.
E seja quem for que lhe tome o lugar
não colherá um único chuchu,
a menos que me diga bom-dia.

COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. São Paulo: Geração Editoria, 203, p. 220-221

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4 comentários sobre “Pra que servem os vizinhos?

  1. E as vezes a gente tem os ‘bom dias’ de nossos vizinhos… mas q são de uma frieza que mais valeria não ter. Sabe como , depois de 10 anos, comecei a conhecer as pessoas que moravam na minha rua – e até algumas de outras ruas? Resp: Fidel. Meu cachorro, Fidel. Os cachorros nos aproximam dos vizinhos. Mas o homem, por si só, já não alcança esta intimidade. beijos frô!

  2. Sandra, gostei muito e vou procurar mais sobre esse escritor. E é aquela coisa, simplicidade na escrita e muito humor. Obrigada pela dica. Adorei!
    (Ai, perdão por fazer comentários tão longos nos outros posts. Fiquei pensando: que tagarela!)
    beijos 🙂

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