Criolo e seus públicos de São Paulo

Sim! Criolo, que se diz cantor de rap, tem me encantado, não apenas por suas músicas, sua performance, seu dinamismo para transitar entre os ritmos (o próprio rap, samba, dub e outros), mas também – e exatamente devido a esse dinamismo – por conquistar públicos muito distintos. É aquela coisa de que falei numa frase bem generalista “Ele conquista tanto a ‘perifa’ quanto a rua Augusta”.

Pouco tempo depois de discutir rapidamente com a Raquel, encontramos uma matéria na Folha dizendo que Criolo expandiu os limites de seu rap e fez um show na Rua Augusta.

Quando falei essa frase tinha claro já a que grupo pertencemos (Raquel e eu). É o da Augusta. Não conhecemos o Criolo a partir de onde moramos, mas apenas quando ele alcançou outros públicos. E disse “da Augusta”, ainda que o show que programávamos ir fosse em Pinheiros ou Vila Madalena, pois a chegada desse rapper ali me soava muito mais como um eco de sua aparição naquela rua. Fosse há dez anos, faria sentido dizer “público da Vila Madalena”. Mas hoje, pra mim, ele conquista o público da Augusta, aquele lugar aonde hoje as pessoas vão à procura de novos sons, misturas, novas cores, luzes, expressões. Isso quer dizer… eu estava tentando mapear os públicos na cidade. Como se fosse tão simples.

Talvez ele conheça muito bem esse público. Talvez ele seja também esse público, ainda sendo periferia.

Uma das diferenças – sem tirar o mérito de outros artistas que aparecem pela famigerada rua – é como bem disse Fernanda Mena, jornalista da folha: “para além do ‘hype’, de ser o atual objeto do desejo, na carne e na música, MC Criolo tem, sim, o que dizer e mostrar.” E sem meias palavras, ele não deixa de dar tapas na cara de aspirantes a intelectuais, frequentadores da Augusta – grupo que talvez eu me enquadre.

É assim que vejo a letra de Sucrilhos – nó na Garganta. É uma troca. Ele apresenta o seu som modernoso e sua performance que agrada tanto aos augustanos. Mas não deixa de passar seu recado de rapper da periferia.

Sandra Oliveira

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13 comentários sobre “Criolo e seus públicos de São Paulo

  1. Concordo com tudo o que escreveu, San. Mas lembre-se que esta “aparição repentina” do Criolo foi toda bolada pelos seus produtores. Eles sabiam que ao promover essa mistura de mundos, gêneros e ritmos, o Criolo estouraria nas paradas e, consequentemente, encheriam os bolsos de dinheiro. Foi tudo orquestrado. Logo quando o CD “Nó na orelha” saiu, a Folha publicou uma ótima matéria naquele Guia de São Paulo, que sai às sextas-feiras, onde a jornalista deixava isso bem claro. Procurei a matéria aqui, mas não a encontrei, infelizmente…

  2. Concordo com vc Goto. Gosto muito do Criolo – quase encantada – mas qd converso sobre ele deixo bem claro a maneira como o conheci: através de um artigo do Marcus Preto da Rolling Stones. Não acho que um cara saia nesta revista, ou na Folha, se os produtores não mediarem tanto a apresentação do som dele quanto o alcance dele até o povo da Augusta. Não há ilusão mas, eu pelo menos, não consigo deixar de admirar a competência do cara. Produtor não resolve tudo.

  3. O Mano Brown, em recente entrevista à Folha, falou um pouco sobre a atual cena do rap brasileiro. Uma das coisas que ele mais se incomoda é que alguns poucos são abraçados pela grande mídia, como é o caso do Criolo. Contudo, outros expoentes, como Dexter e Emicida, ainda vivem no submundo da periferia. Aliás, vale a pena vocês pesquisarem um pouco sobre o Emicida… O cara é muito fera! Ele é filho das rinhas de rap da Santa Cruz; na improvisação não tem pra ninguém.

  4. Não conheço Emicida, vou procurar!!
    João, não acredito que ele tenha sido uma descoberta mágica. Como a Rach, eu falei exatamente sobre isso no texto. Sobre nosso lugar de “alienação”, mesmo pesquisando, refletindo…
    Falar sobre quando uma expressão artística atinge outros públicos é sempre uma questão complicada. E concordo com o Mano Brown, que é um cara que foi pra mídia sem mudar o seu som estruturamente. Mas eu não posso deixar de ser sincera, e dizer que ele me surpreende…

  5. Olá Sandra!
    Poxa, legal ler este seu texto, porque não sou de sampa, mas adoro a Augusta e estou encantada com o trabalho do Criolo, também. Inclusive, uma amigona minha é amiga dele. Logo, sei um pouco das histórias da carreira artística do rapper, porque ela sempre me contava o que estava rolando (há cinco anos). Isso quando ele não tinha essa repercussão toda, seja na periferia ou na Vila Madalena. Agora, com esse CD, entendi a força de expressão artística, talento e um tanto de genialidade que existe no trabalho dele. As músicas são pontuais, com um discurso afinado e rico de críticas sociais. Além disso, não sou nenhuma especialista em música, mas quando ouço o Cd Nó na orelha, sinto pequenos socos no peito, de tão forte que é a música dele pra mim.
    Enfim… irei no show dele no dia 7 de outubro, em Santos (sou santista), e estou bem ansiosa para ver como será vê-lo cantar ao vivo.
    Ah, descobri o seu blog pelo Flavio, e estou espiando outras coisas. E estou curtindo bastante.
    Um abraço,
    Dayane

    1. Dayane, o Criolo causa inquietação, né? Mas não deixe de ler os comentários acima… falamos um pouco sobre o papel do produtor dele, que [acreditamos] foi imprescindível pro trabalho dele ser como está hoje e ele ter essa abrangência toda. E com todas as causas e consequencias que um produtor como esse pode ter na carreira de um artista.
      Mas mas mesmo assim, o cara é bom mesmo. Só ainda não consegui ir a um show desse CD!

  6. Dayane

    Sim, vc tem razão.
    E agora que li todos os comentários, parei para pensar melhor no outro lado da moeda.
    O Criolo é um músico muito bom, mas o produtor dele fez muito bem a lição de casa. Não foi mágica, né.
    E como disse antes, eu já sabia da existência do Criolo, porém, o trabalho feito no Nó na orelha foi o que me possibilitou uma aproximação do trabalho dele.
    E aí, me pergunto, o que muda em relação à carreira dele? Muda algo?
    O cantor e compositor Itamar Assumpção (vc conhece?) viveu sempre como músico independente, tem uma obra rica e vastíssima, mas sem a repercussão merecida. Sem conhecimento de um grande público. A música brasileira deve muito ao trabalho dele. Então, fico me perguntando, qual é a melhor ordem das coisas?
    🙂

  7. Itamar Assumpção é uma das melhores expressões de SP mas é impressionante como sua música parece ser envolvida por uma bruma…. ele é conhecido por quem curte música, quem pesquisa, quem toca…. mas o alcance em públicos variados (como foi o caso do Criolo) não rolou………. sinto que preciso pensar e conhecer muito sobre esta figura – do Itamar – mas uma questão para agora é este alcance do Criolo – e tb a presença do Emicida num evento como o Rock in Rio -… tudo por fazer e por elaborar… pensando….

  8. Pois é, assisti o documentário dele (Itamar), e depois disso passei a repensar toda a música brasileira. No próprio doc, aparece um registro do Itamar questionando a identidade musical do Brasil, que está muito mais direcionada para os baianos, como Gil e Caetano, ou ao povo da Bossa Nova. Será isso mesmo? Será que até hoje não vivemos essa situação?
    Recentemente, passei a colaborar numa festa em Santos, e aí, sim, em contato direto com os Dj’s da festa, mais os produtores, passei a ouvir outros sons, que como vc bem disse, Raquel, sempre são conhecidos por aqueles que pesquisam – por profissão, inclusive. Se não fosse isso, ainda não teria conhecido muita coisa.
    E aí, o som da Ivete chega, os sertanejos, tb, mas e o do Criolo, Itamar, até do próprio Arnaldo Baptista, um músico extraordinário, mas ouvido por poucos, por que não?
    Sobre o Criolo, até agora não consegui pensar que o produtor dele pecou em algo, porque sem ele, não teríamos essa produção como é o álbum lançado este ano. O problema é se a mensagem e o trabalho de vinte anos se descaracterizar, ou o Criolo passar a escrever música sem voz autoral.
    Vi o programa Ensaio com ele, e o mesmo disse que só conseguiu fazer esse CD por causa dos amigos. Será uma jogada de marketing? Enfim…
    Bom, cá estou pensando tb… ainda sem uma opinião clara!

  9. Olha só, amigos, trabalhei durante aproximadamente 30 anos, como produtora musical, tanto com gravações de discos e tv, como com shows. Sempre gostei + dos artistas que sejam verdadeiros, que mostram sua alma, afinal, estão por aqui prá compartilhar a vida.
    A imagem do Produtor, claro q temos inúmeras exceções, não pode ser vista como um marqueteiro, a função do Produtor é saber e fazer a alma do Artista encontre a alma do Público, com verdade, assim, se o Artista se enquadra neste ponto, se dedicar, ter o Produtor q o leve p um caminho certo, tanto de Mídia como de shows, chega + fácil no conhecimento do Público, entenderam? O Produtor não deve nunca ser marqueteiro.
    Há vários anos, deixei a Produção para me dedicar a arte e oficinas com materiais reaproveitáveis e recicláveis, e estou muito feliz assim. Me orgulho dos trabalhoa q fiz como Produtora.
    Abraços, Léo Stinghen

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