Paisagens e não paisagens

Palimpsesto na Vinte e Cinco de Março

Sempre que vou à Rua Vinte e Cinco de Março, acontece algo como o realismo fantástico de Meia Noite em Paris, filme de Woody Allen.

De repente, me transporto para 1922, e ali vejo que o Parque Dom Pedro II é de fato um parque, e não o terminal de ônibus que conheço. Lindo, todo verde e gramado, era também promessa de que ali seria a união da parte leste da cidade com o seu centro. E me pergunto se realmente essa era a intenção ou era apenas uma promessa.

E então chego na virada do século XX. Ali mesmo naquele terreno baldio, próximo ao Rio Tamanduateí, vejo homens se divertindo, praticando um espore novo. Era esporte de elite, football, como diziam os ingleses. Mas na Várzea do Carmo, quem brincava com a bola eram operários, gente que saía das fábricas do Brás e se reunia pra distrair a vida. E não longe dali, os capitães de indústria tramavam acabar com aquela reunião aberta. Melhor seria deixar todos os operários em um clube fechado, sob os olhos dos patrões. E talvez até ganhar dinheiro com isso.

Novamente recuo, e chego por volta de 1890. Mulheres vendem seus quitutes pela Várzea, em um mercado informal, cheio de gente, vozes, cheiros e cores. Elas não se preocupam com muita coisa, já que sempre haverá fregueses por ali. E em 1870, outras mulheres lavam as roupas nas pedras do rio. Mas têm uma preocupação: há boatos de que terão que sair dali e usar água encanada – e bem paga.

Em fração de segundos estou de volta ao século XXI. Olho para frente e vejo uma multidão caminhando, se debatendo, procurando pechinchas e ofertas. Alguns correm para salvar sua mercadoria clandestina, outros oferecem sua mercadoria de dentro das lojas. Muitas carregam suas sacolas, felizes pela economia. Mas não vejo mais o belo parque, não há operários jogando futebol nas redondezas, e quiçá sobraram algumas das fábricas onde eles trabalhavam. Não há quituteiras e nem existem mais seus quitutes. Não há também mais lavadeiras. E sequer o rio Tamanduateí eu posso ver, encanado sob a movimentada rua.

Sandra Oliveira

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