Sobre flâneurs e sonhadores

Talvez seja romântico demais falar sobre encontros e desencontros em um blog que discute a cidade. Mas se pensarmos no quanto nos restringimos a um espaço de segurança, por outro lado nos restam as múltiplas possibilidades de ligação que uma grande cidade oferece, mas dispensamos todos os dias.

Meses atrás, eu estava no final de uma viagem em uma pequena cidade na Chapada Diamantina, Bahia, trocando emails com pessoas que tinha conhecido por lá. Alguns se tornariam grandes amigos, outros, apenas a lembrança de uma boa viagem. Conversando com uma das moças, e depois de perceber coincidências, descobrimos que temos uma amiga em comum. E mais, ela estava no mesmo lugar de minha última festa de aniversário. E estão lá as imagens para provar, até então, uma estranha em segundo plano na fotografia.

E comecei a ver tantos outros estranhos… que passaram e eu não soube quem eram.

Não sou apenas eu que caio nesses devaneios. Baudelaire, que passeava por Paris do século XIX com seu cabelo verde e com uma tartaruga presa a uma coleira, também pensava nisso. Fora o exotismo provocador, sua intenção era ser vagaroso para poder ver a cidade. E talvez para ser visto também. Ora, a calçada, uma invenção do barroco que deveria servir para o passeio do pedestre, cada vez mais se torna apenas um reflexo da movimentada rua de carros, e as pessoas passam apressadas sem olhar a cidade – e sem se olhar.

Baudelaire olhava. Viu até uma passante por quem, em fração de segundos, se apaixonou. Mas ela não estava interessada nesses devaneios. E sumiu na multidão. E ele disse “Ó você que eu teria amado, ó você que bem sabia!” [“Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!” BAUDELAIRE, Charles. “À une passante”. Les fleurs du mal, 1857].

Não tão distante no tempo e no espaço quanto o parisiense dezenovista Baudelaire, na década de 1960 os paulistas do Originais do Samba também cantaram um amor perdido na multidão. Porque mesmo na nossa grande cidade ainda há flâneurs e sonhadores.

Do lado direito da Rua Direita
(Os Originais do Samba) 

Do lado direito da Rua Direita
Olhando as vitrines coloridas eu a vi
mas quando quis me aproximar de ti não tive tempo
num movimento imenso na rua eu lhe perdi

Cada menina que passava
para o seu rosto eu olhava
e me enganava pensando que fosse você
e na Rua Direita eu voltarei pra lhe ver

Sandra Oliveira

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4 comentários sobre “Sobre flâneurs e sonhadores

  1. Rach

    O flaneur eh o presente, o passado e o futuro da cidade… Rouanet, ontem, no Ciclo Mutacoes…. Ah, essas calcadas paulistanas… tts historias q não se fizeram…

  2. Pingback: Pra que servem os vizinhos? | cidadeando

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